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quinta-feira, 3 de março de 2016

Minha História.


                                                            Graduado em licenciatura plena em história 2010, pós - graduado Lato-sensu em história das culturas afro-brasileira e indígena 2011, conselho de educação do Amapá no período de 2011 a 2012, Assessor Técnico de projetos culturais regularização fundiária e educação Quilombola. Principais atividades: implantação de políticas públicas de ações afirmativas do Estado através dos projetos SEAFRO PRESENTE COM VOCÊ, que fez um levantamento historiográfico das populações afros descendente do Estado; criador do projeto prêmio seafro de educação quilombola, intitulado – Igualdade Racial na Escola é coisa séria; organizador do projeto afro ritmos, que implementa a lei 10639/03, com forma dinâmica através da musica. Palestrante sobre a temática educação Quilombola no Amapá em cayene no evento – journne de La libete 165 anniversare de l’abolition de l’escravage no ano de 2013, fui responsável pela comitiva de Amapá na III conferencia de Igualdade Racial em Brasília, onde foi coordenador do grupo de trabalho E2-grupo 07. militante do PSB-nsb sou secretario de formação politica nsb e conselheiro do COMIGUALDADE. Desde pequeno no Laguinho eu, era curioso de como aqueles moradores eram diferentes; para lavar roupas, passar. Assim lá pelos idos de 80; era quando eu tinha 5 anos, eu morava onde hoje é a Igreja dos Momos na avenida Ana Néry, no bairro jacaré acanga (Jesus de Nazaré), minha casa coberta de palha paredes feitas de buriti, o assoalho da casa, tinham umas gretas tão espaçosas que dava pra ver o movimento dos animais debaixo dela. O dia do meu nascimento é que foi um acontecimento. - Minha mãe nunca fez um pré-natal e trabalhou lavando roupa ate o ultimo momento de meu parto, ela conta que bem antes de sentir dor, foi ao poço puxar água para lavar roupa e quando vinha chegando, o primeiro balde, sentiu a dor do parto; dona Zefa lhe acudira a levando para casa, em seguida a parteira foi chamada e todo o trabalho de parto foi feito em casa mesmo, sendo que no meu registro consta que nasci na maternidade de Macapá; pra você ver que história é o que não me falta. Pode parecer estranho mais com cinco anos de idade eu aprendi que ali também era laguinho e, muitos dos bairros adjacentes partiam do mesmo principio. Nessa Rua, Ana Nery, da escada de minha casa eu observava a rotina, da manhã ate a noite (o que não era todo dia Né, pois criança dorme sabe como é), morava na rua conhecia os moradores, nome por nome. Por de traz das casas era cheio de mucajazeiros e muitas árvores frutíferas, manga então; quem plantou eu não sei, os terrenos mediam 30X60 só na rua de casa tinham uns 5 campos de futebol. E falando dos mucajaseiros, no tempo de boa safra nos reuníamos a colher e pilávamos num pilão juntamente com um “siri”, para tirar a gordura (um tipo de grude do mucajá), era então feito vinho do mucajá, mingau com arroz, e varias iguarias do gênero, - rapaz quase ninguém tinha geladeira, só que o pote de barro dava uma água parecia de geladeira mesmo de tão fria; um detalhe com o tempo eu não aguentava tanto mucajá, o que nos alimentava, pois minha mãe lavava roupa para tirar o sustento e, quando chovia não sei se chovia mais fora ou dentro de casa, a vida era em comunidade mesmo, tudo era feito em coletivo, tinha a tia Zefa merendeira de escola pública que morreu na labuta - que deus a tenha, ela era engraçada, tinha uma novela no radio, assim no horário de meio dia quando tava para começar ela gritava – “cumadre norata vai cumeçar a nuvela”, tudo assim da escada de casa. (novela de radio que era transmitida pelas ondas da Radio nacional via Radio Difusora de Macapá)

MEU PONTO DE VISTA DA NOSSA HISTÓRIA

A história que não foi contada.

 

embarque no navio tumbeiro

A história da escravidão no Brasil, ou desde os seus ritos iniciais, nos revela um personagem coadjuvante que, ao longo de toda essa odisseia torna-se personagem principal. Tudo transmitido na oralidade de forma subliminar não (sei se) pensado, planejado.


           O continente africano, cenário da extração forçada dos guerreiros, rainhas e reis, ao migrarem por águas transoceânicas eram obrigados a circundar a tal árvore do esquecimento - para que se esquecesse de sua terra, de sua vida livre; foi o primeiro passo de uma construção da liberdade. No embarque varias etnias partindo de um mesmo continente que aos montes no porão do navio tumbeiro, tentam se comunicar, articular. “Segundo Eduardo Fonseca Júnior no livro “Quilombo do Zumbi a História que não foi Contada”, um translado torturante, sendo a carga de tamanha importância ao desenvolvimento colonial resolveram desentorpecer; “dar movimento ao corpo, assim para “afugentar a dor do banzo”.

negro dançando para desentorpecer a dor do banzo.

 Árvore do esquecimento, dor do banzo, açoite, corpos mar- a- baixo, remadas, tambores... sem perceber eles estavam dando ao povo negro, armas usadas rumo a libertação; o tambor! e a dança. Nos navios tumbeiros, movimentados por velas e em águas calmas as remadas é que davam movimento e esse, por sua vez, eram os negros que tinham essa incumbência, remadas, tambores, cantos de prantos e dor, comunicação... Antes de vim ao convés aos montes, juntos aos “seus” a despedida no meio a fedentina de fezes, urinas, corpos mortos, a despedida dos corpos que foram ao mar, o tambor, o canto, o pranto, a dor a comunicação. 

                                                Remando o barco do colonizador

Ao longo dessa trans-migração, o povo negro, veio agregando valor a tudo e a todas as coisas ao qual foi um mero observador, nas senzalas o açoite, o grilhão, o negro de ganho, no navio negreiro e dentro da senzala apanhando,trabalhando sempre acompanhado do canto e da dança. Laurentino Gomes relata a figura dos tigres que eram responsáveis pelas coletas das fezes; não é que o escravo ate na hora de coletar as fezes dançava e cantava:

                                                negro tigre jogando as fezes no mar
“A        

       urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas durante a noite, eram transportadas e pela manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregam grandes tonéis de esgotos nas costas, durante o percurso, parte conteúdo désseis tonéis, repleto de amônia e uréia, caia sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras brancas sobre suas costas negras. Por isso esses escravos eram conhecidos como tigres”. (Gomes, Laurentino p144).

Negro canta e dança na lavoura  

A mesma coisa era repetida nas lavouras com trabalho do roçado ao fim do dia quando se vinham pelos caminhos se juntavam os sacos equilibrados na cabeça, negros com a maior parte do corpo exposto e definidos com a marca do tempo; na frente um negrinho conduzia o bando com um chocalho cantando e dançando ditando o ritmo aos outros e a cada passo a melancólica cantiga são valores que são atribuídos a tudo, deixando mensagem aos menores os erês. Essa é a moldura de um quadro encontrado pela família real no desembarque em 1808, e nesse desembarque o negro põe valores e caracteriza a forma do carnaval brasileiro uma maneira bem peculiar de protestar. 

 

chegada da família real              

 

 primeiros gritos de carnaval no Brasil colônia

 

 Nesse processo chegamos à colonização da Amazônia quase no fim, já fizemos parte do trafico interno aquele que remanejava os negros ora estavam no Rio de Janeiro, quantos não foram os que passaram pela Bahia de todos os santos? Assim foram sendo esquecidos pelos campos do Laguinho, Favela, e varias comunidades existentes em todo o hoje Estado do Amapá, e tudo teve o seu inicio em torno do forte construído pelo próprio negro que em pleno século XXI busca identidade, uma referencia de suas raízes, árvore genealógica do povo Amapaense, Ou seja, para que uma cultura se fortaleça não se pode implantar uma cultura num lugar que não tem afinidade, mesmo sendo comunidades próximas umas as outras a diferença é muito grande. Nesse trabalho busca-se a essência do que o tempo e as interferes tratou de acabar as tradições que norteia um povo sem o esquecimento de suas origem. 

Nossa pesquisa se desenvolveu nas referidas comunidades com moradores antigos na faixa etária de 60 a 80 anos sem o conhecimento do objeto podemos formar um perfil de se encontrar onde o povo se perdeu, nas visitas anunciadas identificamos como as festas de santos aconteceram e como e porque outras famílias adotaram outros santos. As comunidades visitadas são movidas pela fé, registramos o caso de algumas comunidades que 80% deixaram de viver na sua cultura vivendo outra que o aliena o convencendo na maioria das vezes na venda de suas terras o afastando cada vez mais de suas tradições e costumes (proselitismo religioso). A lei 10.639/93 se justifica pela história e cultura do negro assim, com o conhecimento a aplicação torna-se viável, acontece que antes de tudo temos de fazer o próprio protagonista descobrir a sua própria história esse documento é apenas uma parte do nosso objetivo. 


João Ataíde (Mandela), licenciado em história, pós graduado em história indígena e africana.