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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A FESTA DE SÃO JOAQUIM


A festa de São Joaquim do Criaú.

São Joaquim esta na terra 
com prazer e alegria
nós vamos louvar
o vosso sagrado dia...
batuque de são Joaquim 2017


Essa é a primeira "Bandaia" a se tocar numa roda de batuque; Bandaia é como se chama a musica ritmada pelos tambores e pandeiros do batuque de São Joaquim do Criau. Vale uma justificativa, quanto ao nome da vila, quando me embrenhei pelos campos da vila, ouvia o Tio Anduda, dona Jovina, chamavam de "CRIAU"; meu pai Joaquim Nascimento da Silva, filho legitimo da vila de criau de baixo.


Fui a fundo, vivo ate hoje na busca de entendimento da cultura de nossa gente. Enfim, Tendo o nome se originado dos termos CRIA (de CRIAR) e MÚ (DE GADO, BOI), convergindo o vocábulo para CRIA-MÚ assim, a maioria ainda chama de CRIAÚ, conta-se na vila, que uma professora, vinda da cidade, passou a lecionar na vila e achou que o nome criaú estava errada e dizia aos alunos que o nome certo era curiaú, a mesma, escrevia em documentos oficiais exatamente o vocábulo curiaú; mostrando o processo de aculturação a que a vila foi submetido.


Falando de festa de São Joaquim que acontece sempre no mês de agosto, entre os dias 09 a 18; isso varia muito, é uma mistica que envolve, a responsabilidade de mobilizar, articular, e especificamente receber as outras comunidades; na organização da festa as tarefas se dividem entre homens e mulheres, as mulheres tomam conta da cozinha, sendo que quem prepara a carne para o cozido, que será servido, fica aos cuidado dos homens.


A maioria dos bois que são oferecidos, são doações de promessa. Ao final das tarefas dos grupos, passam a fazer os preparativos para o batuque. As mulheres passam a se arrumar, vestidos florados, estampas chamativas, chegam no barracão, enquanto os homens, acedem a fogueira que ficará acesa a noite toda, essa vai servi para aquecer os tambores; os mantendo afinados e aquecidos ate o romper da aurora - o batuque fica animado, movido por gengibirra, e muita animação.
Grupo filhos do criau 2017


Segundo o jornalista Helio Pernafort, a origem dos festejos de São Joaquim, diz que alguns negros, não suportando o trabalho forçado nas fazendas do nordeste, fugiram e chegaram em Macapá e foram recrutados para trabalhar na construção da fortaleza em meados dos seculos XVIII, muitos desses passaram pelos trabalho da construção da fortaleza, os negros que fugiram entraram em contato com os negros que já estavam, aonde hoje é a vila de criau, era uma fazendo do senhor MIRANDA, quando esse morreu os negros tomaram conta do lugar, a partir desse encontro, dos negros fugidos e negros amocambados, os mesmos eram todos cristãos e escolheram São Joaquim, pai de nossa senhora, como padroeiro do lugar. sendo os festejos de São Joaquim, uma das mais antigas festas da comunidade negra no Amapá.

viva são Joaquim

São Joaquim esta na terra 
com prazer e alegria
nós vamos louvar
o vosso sagrado dia...
   
Palavras-chave: Festas Cultura Negra,São Joaquim do Criaú, Amapá,Reelaboração Cultural

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Renato do Rosário Ramos, o que faz o pandeiro falar




Renato
                                   
               
Quando eu chego numa roda de batuque, vou para tentar entender, todo um sincronismo, a dinâmica que envolve o batuque e suas bandaias. sempre vi o Pedrão e o Renato lado a lado; ainda não tinha ido a fundo, o fato deles serem tio e sobrinho, estava passando despercebido.

 O Pedrão representa a força no toque do pandeiro e o Renato a sutileza na tirada do som, ou seja, um completa o outro, juntamente com a harmonia dos tambores, o som fica de uma dinâmica que agrada e faz dançar.  tudo gira entorno do núcleo familiar da família Ramos. 

o batuque se inicia com um ritual, a fogueira, os tambores e tocadores.

 foto arquivo pessoal

Muitas gerações já se embalaram nas rodas das "bandaias" do batuque do criau. Valdevino Soares, Aureliano Ramos, Bertor Ramos, Capão Velho, João Bacaba e muitos outros, a maioria desses fizeram escola na arte do batuque, sim, escola mesmo de repassar a cultura nos mínimos detalhes. Assim foi com o Renato do Rosário Ramos de 42 anos é neto de Valdevino Soares Ramos, ele contou que o seu avô sentava e dizia como tirar o som do tambor, 
     
        - João, ele me dava o pandeiro com o couro cru, minhas primeiras aulas foram sem sentir o som do tambor, eu ficava vendo, quando eles se reuniam na roda, falavam pelas mãos.


       - Assim rapaz, eu ficava meio irritado porque que eu não conseguia tirar o mesmo som, muito depois foi que fiquei sabendo que quem ajudava no melhor som era o fogo.
     
 Da mesma forma que recebeu os ensinamentos, repassa ao seu filho Aurélio, assim a cultura se eterniza pelas mãos dos negros do criau,  de Valdevino ao Aurélio são 4 gerações que não deixam a cultura acabar.

São Joaquim esta na terra
com prazer e alegria
nós vamos louvar
o nosso sagrado dia...

















Os Tambores da Bandaia do Criau.



Os tambores são usados, desde os ancestrais da humanidade. Creio que os primeiros tambores fossem troncos ocos de árvores, tocados com as mãos ou galhos. Depois, quando o homem aprendeu a caçar e as peles de animais passaram a ser utilizadas na produção de roupas e outros objetos, percebeu-se que ao esticar uma pele sobre o tronco, o som era produzido mais poderoso. Pela simplicidade de construção e execução, tipos diferentes de tambores existem em praticamente todas as civilizações conhecidas. A variedade de formatos, tamanhos e elementos decorativos depende dos materiais encontrados em cada região e, dizem muito sobre a cultura que os produziu. Mais de onde vem toda essa ancestralidade do curiau ? qual foram os primeiros negros que chegaram, respostas como essas não temos, pois essa possibilidade os colonizadores tiraram, hoje tentamos rescrever através da cultura do tambor.
Os tambores, tanto o de batuque ou do marabaixo, são presentes em todos os atos religiosos das festas religiosas
São típicos nos cultos afro-brasileiros a dança, os tambores, os pontos cantados, o transe e a iniciação dos novatos.

Existe algumas ramificações entre o Nagô de Xambá, Nagô Vodoo, Nagô que toca Cabinda, Nagô que toca Jeje, Nagô que toca Oió. Na verdade são ramificações do nagô que algumas usam atabaques e a maioria tambor de dois lados. No projeto Raiz Cultura em Maringá acabou de chegar um irmão que justamente é ogan de Nagô, ele deve tocar em atabaque, pois a maioria dos que tocam em tambor usam o nome de Alabê ou tamboreiro. Por mais que exista uma semelhança entre os pretos-velhos de nagô, cabinda, angola etc… (Raiz e cultura Brasileira). E qual a ligação desses eventos com o criaú?

Criaú lugar paradisíaco, místico. A vida brota por todos os lados, hoje no curiaú de baixo reacende com sua cultura, num despertar de uma comunidade, essa se entrega entorno do batuque. Alias vale apenas dizer que essa arte se difere do marabaixo em poucos aspectos. Toda essa tradição vem ganhando força e consistência por iniciativas de jovens do lugar, hoje o personagem é pura ancestralidade. Herdeiro da arte de fazer tambor de batuque; seu avô Manoel Cecílio Ramos, tanto fazia, quanto tocava o tambor, mesmo cego desenvolvia a arte com perfeição; a sua avó se chamava Elflasina Cimpliana Ramos; ambos de uma geração que não conheci, O SEU PAI eu o chamava de tio Anduda, CONHECIA AFUNDO A HISTÓRIA do criau, infelizmente tudo foi perdido, não foi feito registro, o que resta, são os fatos transmitidos de forma oral.
O Eduardo da Silva Ramos, desenvolveu a arte de fazer tambor, nesse cenário ele conta que cada madeira dá um som diferente, sendo o mais apreciado por ele o da “macacauba”, facilmente encontrada na região, ela é colhida em forma de tronco e, logo cavada, deixando oco o seu interior, por fora ele é toda planada. Os equipamentos utilizados foram aperfeiçoados para a arte.

Os coros utilizados são dos mais variados, ficando a preferência para o de boi e o de veado mateiro, o pandeiro de acompanhamento segue um outro padrão; de madeira também feito pôr ele, sendo que no batuque não se faz só do “amasso e do macaquito”.
Hoje os tambores, ajudam na renda da casa; um custa entre 500 a 1000 reais e todos são feitos por encomenda.

A cada dia, eu fico convencido, que além de prevalecer o orgulho de ser negro, as particularidades de cada comunidade tem de ser respeitadas. Não adianta tentar implantar marabaixo, numa comunidade que não tem essa afinidade para música, se a sua afinidade é outra, existem comunidades que desenvolve habilidade de fazer louças, culinária etc. assim, fica nítido, que os bando foram divididos entre bantus, benguelas, e nagôs, só temos que descobrir a qual grupos pertencemos.

O Eduardo tem 42 anos, tudo que sabe, ele escutou; não sabe ao certo a qual desses grupos o povo do criaú pertence. O nosso trabalho é, exatamente esse montar a nossa árvore genealógica que um dia nos tiraram.

João Ataíde,