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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

São Francisco da Casa Grande amanhece sob ameaça de intervenção do aparelho policial




          "A história se investiga de varias formas, uma delas é os registros oficiais outra é a oralidade, nesse caso eu me utilizei, do oficial e da oralidade que ainda é presente na comunidade, Agradeço ao leitores que colaboram e fazem observação, coisa que agradeço e aperfeiçoando essa fonte de informação"                    

                       Na valorização das nossas comunidades quilombolas, falo um

pouco de São Francisco da Casa Grande, que seguindo na rota da AP 70, fica

distante de Macapá 25 km.




                           Localiza-se entre as localidades de Criaú e São José Mata Fome. Sua principal atividade produtiva é a agricultura: farinha, açaí, tudo o que vem da terra; a forma de comercialização; MUITOS VENDEM NA PORTA DE SUAS CASAS.  Possui um campo de Futebol, Centro Comunitário, cozinha, já houve uma Escola Estadual que ficava na margem esquerda, de quem vai de Macapá. Os moradores reclamam dos desrespeitos praticados, caros em alta velocidade, motoqueiros que fazem rali nos seu quintais, os mesmos sempre solicitam por policiamentos.



cozinha e parte do centro comunitário
       
                  Dessa comunidade um fato acontecido na década de 60, ficou marcada como luta pela posse da terra.
-             Um conflito entre camponeses e representantes governamentais, na comunidade de São Francisco da Casa Grande, veio resultar em uma tragédia, quando da interferência de advogados e do aparelho policial na contenda que até então ocorria sem maiores desdobramentos que viessem afetar a integridade dos camponeses.
O OCORRIDO.


livro utopia da Terra, como fonte desse artigo.
        
        
           A terra em disputa era uma área de aproximadamente 2.500ha que teria sido comprada pelos irmãos Pedro, Bernardo e Eugênio Chagas de seu tio Gregório Catarino dos Santos.
               Pedro e seus irmãos, que nasceram e trabalhavam na área, disputavam, há muito tempo com Gregório Picanço e seus (seis) irmãos que viviam na região da Pedreira. Os Picanços, mesmo não morando nem trabalhando na terra de são Francisco da Casa Grande, propugnavam pela sua posse, talvez como um “direito de ancestralidade” ou também como uma relação social com a “terra comprada”. A disputa entre esses camponeses operava-se mais no plano das palavras, da agressão nas suas relações político-sociais com ameaças do uso da lei.
               São Francisco da Casa Grande amanhece sob ameaça de intervenção do aparelho policial. Cria-se uma expectativa de expropriação da terra. Os Chagas se preparam para resistir em sua terra de trabalho. E assim, num Sábado de julho de 1962, um caminhão entra em São Francisco da Casa Grande conduzindo uma diligência policial, composta de nove pessoas (sete policiais, inclusive delegado e dois dos camponeses que disputavam a terra com os Chagas). Essa incursão policial veio se constituir, na sua forma de intervenção autocrática, no instrumento promotor do conflito armado pela posse da terra que São Francisco da Casa Grande nunca conhecerá. Avisados, os policiais se dirigiram para a casa de farinha, onde se encontravam trabalhando Pedro Santos das chagas, seu irmão Bernardo e seus familiares, inclusive mulheres e crianças. A interpelação abrupta da polícia e o próprio clima de tensão na área, diante da informação de que a policia viria para prender os Chagas, no dia anterior, desencadearam uma luta entre policiais e os (dois) irmãos Chagas que veio a redundar em um saldo trágico: dois mortos e quatros feridos. Morreu o detetive Costa e Gregório Picanço, este acompanhava a própria policia junto com Pedro Banha Picanço. Ficaram feridos: Pedro e Bernardo Chagas e os policiais Diocleciano e Dario Costa.
              A policia constituiu uma patrulha que se dirigiu incontinente para são Francisco da Casa Grande Revoltados com a morte do colega, os policiais chegaram a ameaçar de fuzilamento todos os familiares de Pedro e Bernardo.
No momento em que estes não foram encontrados ascendeu o desespero dos policiais. Os camponeses da casa grande se refugiaram no mato, por muitos dias, com medo da policia. E os policiais, entre outros desatinos, metralharam os fornos de farinha e animais, assim como destruíram e sequestraram produtos agrícolas dos camponeses acuados. Alguns dias depois Pedro e Bernardo chagas se entregaram à policia, passaram quatro anos e seis meses reclusos na antiga penitenciaria conhecida como Beirol. Essa historia é que faz da comunidade de Casa Grande diferente das outras. Na comunidade poucos falam desse fato, dona Josefa Meneses das chagas, ela é filha de Pedro do Santo Chagas um dos nossos personagens dessa historia, quanto ao seu pai ela não deu com precisão a data do seu falecimento, o seu Bernardo ainda é vivo o qual eu tive privilegio de conversar em 2013 e confirmar esses fatos.

Dona josefa fonte desse artigo


O batuque do dia 1 de cada ano no Criaú/Curiaú


O batuque do dia 1 de cada ano no Criaú/Curiaú


                   Os primeiros negros que aportaram em solo tucujus serviram de pilares e matrizes do povo Amapaense. E exerceram direitos sobre a terra em que vivem. Com o passar do tempo, a força do capitalismo vem acabando com a sua principal essência: à cultura e orgulho negro. O resgate da alta estima, só é possível, com o fortalecimento e resgate da sua história.




batuque de 2014

                De longe; por sobre as árvores do criau. avista-se as torres e prédios, chegando cada vez mais e, de forma assustadora invadindo pastos e campos. são muitos os moradores antigos que adquirem nostalgia e saudosismo, e morrem por paradas cardíacas, tudo como seus ancestrais que dançavam para espantar a dor do banzo; que nada mais é do que a depressão.
Ainda hoje, 128 anos da abolição da escravatura, o negro ainda é aprisionado pela indiferença e o descaso.


          
            Com o crescimento populacional desenfreado, o capitalismo atingi um dos primeiros pontos de resistência negra do extremo norte; onde gradativamente os costumes e tradições estão sucumbindo, proibidos de pescar e de cultivar o roçado, o único meio de sobrevivência é o comercio comum e muitos se dirigem a cidade para tirar o seu sustento.

             O “criaú” foi certificado e titulado quilombo, o respeito à hierarquia.
Quando os caminhos para o “criaú” transformaram-se em uma estrada que cotou o quilombo, foi promovida uma espécie de “torre de babel”. O batuque, marabaixo, as ladainhas e festanças dos santos, tiveram uma concorrência desleal, pois os jovens desprestigiaram por conta de toda uma invasão de som eletrônico, proselitismo, alcoolismo, uma serie de “externos convenientes”, e os velhos, sem forças para manterem a cultura do criaú só se lamentavam que isso estivesse acontecendo.

              Acontece que na vida do negro, tudo é transmitido de forma oral e intuitiva, a musicalidade é coisa natural, assim de forma natural, essa historia vem ganhando outro rumo. viva a resistência!!! pelo menos a 10 anos eles (jovens) viram que a única salvação de não serem engolidos pelo avanço da cidade é fortalecer a sua cultura. Como eu havia falado, há 10 anos esses jovens que estão nas fotos num dia 1ª de janeiro de cada ano, como de costume reuniam-se para comentar o ano que passou e planejar o ano novo, tudo monótono a bebedeira ficava sem precedentes, ou seja, nada é por acaso. Então Elielton césar, Renato, Zé Maria, Geovana, Rosana, e já vou parando por ai para não ser injusto, propuseram:


- já que não tem nada para fazer, vamos fazer um batuque. Pegaram os tambores, acenderam a fogueira para aquecê-lo; “o fogo sempre vem antes do batuque”, e como uma brincadeira, ficaram rindo e cantando. 10 anos depois o batuque virou festa é um momento de confraternização de todo o criaú, tanto o de fora quanto o debaixo, e vale a pena ver a alegria dos jovens recebendo os senhores e senhoras, as fotos falam por si. Esse ato promoveu uma revolução dentro do criaú.