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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Plantar comunicação como se planta o umbigo na terra




Plantar o umbigo na terra é muito presente na cultura das comunidades negras, quilombolas, saramakas. O filho que ao nascer a mãe enterra o umbigo e cria um laço de amor ao seu lugar – eu sou descendente quilombola porquê o umbigo de meu pai foi plantado no quilombo.

 O mesmo ato é feito pelo saramaka do outro lado da fronteira, na Guiana Francesa – "Oyapock, a mo péyi, a la mo ké rété, oui a la mo ké rété,paské a la mo lombri planté…" tradução  "Oyapock, é meu país,e é aqui que eu vou ficar, sim é aqui que eu vou ficar, por que foi nessa terra que meu umbigo foi plantado..."-  isso é comunicação ancestral.

Sempre levei minha curiosidade – como esse ato se da lá e se da aqui?

Mesmo separados por um rio?

Da forma de comunicação de comunidades distantes umas das outras, de continente a continente, formas de vidas que se uniram pelas ondas do mar, viajaram pelas ondas e rajadas de vento, pelas fumaças, de alguma forma a comunicação se fez.

A transmissão da informação, solidificou pelas rodas do dialogo constante da cultura; o que se canta num determinado lugar, comunidade, vai ser cantado e vivido por outra do “lado de la” do planeta, como de Marrocos a Mazagão, sim, a conexão dos ancestrais com os descendentes, como uma genealogia que integra costumes, crenças, modo, trejeitos. No acalantar de uma mãe amamentando , na labuta do pai no roçado, no cultivo de sua cultura, participação nas atividades culturais, aprender fazendo, falar falando.

Essa tecnologia ancestral - subliminar - conecta uns aos outros por indução “umbilical, no sentir e no falar. Essa forma vem se aliando as estruturas contemporâneas, o universo se investe, pois a sabedoria popular da comunicação foi a muito tempo enlatada e transformada em lucro para o mundo capitalista, a inversão é transformar a comunicação das comunidades, mesma linguagem; com idiomas diferentes, mesmos dizeres e causos, com amplificação de ondas a serem captadas - sentimento.

Numa roda de conversa levadas pelo vento, o ar é livre para que possa ter espaço para fluir o conhecimento, tornar coletivo, coletivo de um povo, feito um código a ser decifrado pela essência da percepção da ancestralidade, a sabedoria de quem transmitiu a resistência: negro, índio, excluídos.

Comunicação a serviço da comunidade de forma livre e, compreensível a todos, pois os meios de comunicações, fazem uma frente pela alienação do povo, quando uma comunidade se organiza pela comunicação, abala as estruturas, a comunicação integra a sociedade mesma que isolada, como um índio que nunca precisou dos grandes centros; com  toda a estrutura, sobrevive do seu locomover do seu falar do seu comunicar.

Planto um umbigo para se comunicar.

por João Ataíde.

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